Meus heróis desafinados...
Todo mundo tem um herói. Tenho os meus também. Só que meus heróis não são os mais fortes, nem os mais bonitos, nem os mais talentosos. Chama-me a atenção as fraquezas que os tornam parecidos comigo. Desperta a minha admiração vê-los lidar bem com estas fraquezas. Mais admiração ainda quando vejo que meu herói se gosta, mesmo que outras pessoas o vejam como inferior. Gostaria de ter coragem de cantar alto, mesmo sabendo que as pessoas me consideram desafinada. Mas a crítica e o excesso de auto estima das pessoas com quem convivi me fizeram calar. Meus heróis superariam esse tipo de coisa. Eles sairiam pela rua cantando bem alto, divertindo-se da indignação alheia. Coisa de gente livre. Coisa de gente que olha para a vida e a vê apaixonante e transbordante de liberdade! Coisa de gente que entende o que Deus oferece e os limites do saber viver. Coisa de gente que sabe ser feliz, independentemente do que ouvir.
Escrito por Chris às 20h56
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Era uma vez, uma rua de papel...
Moro perto de uma Favelinha. Quer dizer, morava. Eu conto. Há uns 25 anos, algumas pessoas montaram seus barracos no meio de uma rua que ainda nem fora aberta. Segundo contam, a rua só existia nos mapas, mas não de verdade. As pessoas montaram suas casas ali. O bairro foi crescendo, e os lotes ‘legítimos’ foram aparecendo em volta da rua que só era rua no mapa, no papel. Rua de papel. Construtoras pagaram pelos terrenos em volta da rua de papel. Pagarem seus impostos e construíram seus prédios. Outras pessoas compraram os apartamentos e pagaram seus impostos. Tudo em volta da Rua de Papel. Os últimos terrenos ficavam na Rua de Papel, ocupada pela agora nomeada Favelinha. Durante uns 10 anos, as pessoas que moravam na Rua de Papel foram avisadas de que deveriam sair dali porque a rua precisava sair do papel. tornar-se rua de verdade, ganhar um nome. Avisados foram que não deveriam investir nas casas que construíram porque elas seriam derrubadas. Os moradores riram, construíram, e, para mudarem, exigiram outros lugares para se instalarem perto dali, com balneário como o que tinham ali perto, com água encanada e luz instalada, e não improvisada, como a que tinham. Cada vez faziam uma exigência nova. A paciência de alguém foi muita, mas acabou. A rua precisava ser aberta, e os moradores precisavam sair de lá. No final de 2004, chegou o ultimato: sem balneário, sem luz e sem água. R$ 5.000,00 para cada família e a rua ia mesmo deixar de ser de papel. No mesmo dia, ouviu-se o choro e a marreta. Lágrimas e paredes caíram ao mesmo tempo. E a rua vai deixar de ser de papel porque outros moradores vão passar por onde, um dia, haviam quartos, salas e cozinhas... Pequenos, é verdade, mas cheios de gente, histórias e sonhos. Não quero ver, embora não possa deixar de ouvir lágrimas e paredes, numa sinfonia de tristeza e desesperança. Foram avisados, é claro. Não era legítimo o lugar onde moravam. Mas era ali que moravam. Moravam. Agora não moram mais. Quem sabe para onde vão? Quem sabe como serão as casas para onde vão? Problemas da cidade que não pode perder nada, mas que também não sabe resolvê-los.
Escrito por Chris às 20h20
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|