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A noite e a dama...
Vai chegando a noitinha. A Lua vai aparecendo entre as poucas e sérias nuvens que ainda ficaram depois chuva forte. Um friozinho convida a buscar aconchego. E o vento traz o perfume tão gostoso de uma dama.
É um perfume dos melhores que já senti, que vem me falando do final do verão. Todos os anos, ele se espalha da mesma maneira!
É que um vizinho, com uma generosidade involuntária, permite à natureza banhar de perfume todo um quarteirão, mantendo num de pedacinho de terra uma dama-da-noite que cresce tanto que causa admiração. É a simplicidade da terra e a seus resultados esbanjados.
Já vi gente reclamando que o cheiro é forte. A mesma pessoa, arrumada para uma festa, fedia a perfume comprado em perfumaria. Mil vezes, prefiro o perfume da outra dama.
Escrito por Chris às 13h30
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A bicicleta e o vazio
Hoje não seria um bom dia para eu escrever, mas preciso expurgar alguns sentimentos. E meu jeito de fazer isso é escrever. Andando de bicicleta, passávamos pela casa de um primo. Não meu. Mas se era alguma coisa minha, era o primo do passeio de bicicleta: “Primo, vamos dar uma volta.” E ele respondia: “Hoje não dá. Vou voar daqui há pouco.” Em outro dia: “Primo, vamos pedalar hoje.” E ele dizia: “Hoje não. Vou voar mais tarde. Fica para outra vez.” Eu já estava acostumada a ouvir a recusa ele por causa dos vôos. Ele trabalhava em aviões. Era comissário de bordo, profissão tão comum por estas bandas. Um dia, há bem pouco tempo, o primo começou a despedir-se de quase todos os amigos, agradecendo a cada um por tê-lo permitido participar de suas vidas. Ninguém entendeu. Decerto o primo iria voar outra vez. O que ninguém imaginava é que ele teria preferido voar sozinho. No sábado, ele entrou em casa, serviu-se de sustagem e veneno, e tomou o último lanchinho de sua curta vida. Sozinho. Foi encontrado domingo, debruçado no vaso sanitário... Ninguém sabe o que o levou até lá, se a dor no corpo ou a dor na alma, de arrependimento... Não sei explicar o que estou sentindo, nem espero que alguém decifre. Hoje, olhando as nuvens passarem depressa no céu, fiquei pensando na vida dele. Andando pelos lugares onde precisei ir, fiquei imaginando que ele nunca os visitaria de novo. E nosso passeio de bicicleta que ficou para outro dia... Sei que a psicologia tem explicações para o que aconteceu; a teologia também; a religião idem. Nenhuma delas importa agora. Sinceramente, não quero ouvir explicações de nenhuma delas. O que está na memória e até nos olhos é a casa vazia do primo. É a bicicleta que nunca mais será usada. É o passeio que ficou na saudade... No vazio...
Escrito por Chris às 20h32
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