Hoje vi um enterro. Um vizinho tinha um carro. Ele era um rapaz (quem é mais velho chama de rapaz pessoas com mais de 40, né!) aposentado pelo Estado por doença. Tinha problemas psicológicos e tomava uns remédios fortes. Como não tinha muito o que fazer, cuidava de um carro vermelho conversível antigo. Era rotina caminhar pela rua e cumprimentá-lo, distraindo-o do eterno cuidado com o tal carro vermelho. De tão cuidado, o carro deixava envergonhado muito carro novo! Vi este vizinho casado duas vezes, sempre sob o olhar atento da mãe. Mas o vizinho andava meio mau de saúde. Desmaiou algumas vezes. Num desses dias, o carro não lhe foi útil. Foi para o hospital de ambulância. De outros, não sei os detalhes. Um dia, o vizinho recebeu a notícia de que estava mesmo doente. Tinha um tumor na barriga e o caso era grave. Nada disse à mãe. Ele sabia que ela sofreria antes e depois do tempo. O tumor era dos "maus" e venceu aquele corpo franzino, controlado por muitos remédios. O vizinho morreu. Os vizinhos só souberam dias depois, pela mudança dos ares da rua e pelo carro parado na garagem, sem que ninguém dele cuidasse.A rua ficou mais silenciosa e mais "arrumada" sem o carro na calçada. Morbidamente arrumada. O carro, parado dentro da garagem. Ficou assim por meses. Hoje, o carro foi tirado da garagem como morto. Não funcionou quando o comprador tentou ligá-lo. Foi carregado pelo caminhão guincho, como se estivesse em um esquife. Coisa estranha. A irmã parada do vizinho no portão, segurava o pagamento pelo carro "morto". Ela, sim, orgulhosa da limpeza que fizera. Primeiro, as roupas do vizinho; depois outros pertences; agora, o carro. Pronto: nada "desnecessário" acumulado nos cômodos da casa onde vivera o irmão com a mãe, e as esposas. Tudo limpo. A mãe não veio ver o carro indo embora. Ia com ele a marca do vizinho. Ia com ele a última impressão de que, talvez, o vizinho tivesse perdido a hora, ou estivesse almoçando, ou ido pagar uma conta, por isso não estava cuidando do carro. Enterro sem choro, sem mulheres de luto, sem sobrinhos de olhares arregalados sobre o falecido. Enterro seco de um carro também morto.
Escrito por Chris às 19h10
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