Defs. Intelectuais
Ao chegar ao local onde estagio, preciso deixar muitas coisas para fora. Talvez, a primeira seja querer fazê-los como sou: meus valores, minha lógica, comportamento, memória, projetos... A segunda, talvez, seja o olhar. Tenho que parar de vê-los a partir do mundo lá fora, e vê-los a partir deles mesmos... O mundo deles é ímpar. Para estas pessoas, o bonito é o nosso feio; é o nosso feio é-lhes bonito. Nós somos horríveis, embora extremamente necessários. Somos horríveis por querê-los iguais a nós: produtivos, decididos, críticos, atuantes... Eles não conseguem ser assim. Engraçado que não vejo neles a tal pureza infantil, da qual tanto falam. Vejo, sim, uma felicidade inconsequente, momentânea, instável. Esta felicidade pode ser consequência de muitos processos químicos também instáveis, da ação de medicamentos, das próprias síndromes que eles têm. Mas ela é frequente. Os estudos mais profundos da mente humana não conseguem definir muitas destas pessoas. Não conseguem mapear suas mentes, nem dar uma direção para o trabalho. A dificuldade e a fascinação do trabalho com deficientes intelectuais está em descobrir o que está latente em suas mentes e, a partir dali, levá-los a desenvolverem-se o mais amplamente possível. Ás vezes, é tão pouquinho... Enquanto isso, eles estão ali, incognitos, distantes; mas, ao mesmo tempo, tão livres... A distância entre o mundo de um def. intelectual e de um não deficiente é muito grande. Os deficientes não sabem a dimensão nem as implicações do que são. Eles vivem os dias numa mistura de passado e presente, de sonho e realidade, de presença e alienação...Falam alto, riem, reclamam, surtam, cochicham, pedem atenção, envolvem-se. Mas como nos recebem bem... E se não gostam de alguém, logo manifestam! Nós os olhamos, tentando trazê-los para o nosso mundo, com nossas verdades que, às vezes, eles ignoram ou rejeitam. Às vezes, esta distância é fascinante, embora sempre comprometedora. É um processo muito doloroso para quem vê nascer em sua família alguém que nunca vai caminhar na mesma direção dos demais da casa... Disseram-me que, quando uma mãe descobre que seu filho é def. intelectual, ela tem que matar o filho "são" com o qual sonhou, em quem depositou suas expectativas e sonhos, e enterrá-lo, e deixar nascer o filho real. Se ela não fizer isso, todas as vezes que olhar o filho real irá rejeitá-lo, sua alma sentirá dor de novo, será tomada de frustração e desesperança. Viver assim é quase insuportável... Se ela matar o filho são, aprenderá a viver nas perspectivas reais do filho que existe, conseguirá ser feliz com as pequenas (grandes) vitórias que este filho conquistará. E estas vitórias serão como sonhos realizados. Deus as console. Deus as ajude. Deus as faça mães fortes e adequadas para estes filhos tão fascinantes.
Escrito por Chris às 09h19
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